Guerras comerciais internacionais: como elas impactam o Brasil?

guerras comerciais internacionais
6 minutos para ler

Você já se perguntou de quais formas o impacto gerado pelas guerras comerciais internacionais afeta o Brasil? Afinal, quais mudanças elas podem causar, de fato, no cenário do comércio exterior?

A fim de responder a essas e a outras questões pertinentes ao tema, preparamos este conteúdo. Ao longo do texto, explicaremos no que consistem essas disputas e por quais razões são tão relevantes. Aproveite as informações!

Quais fatores caracterizam uma guerra comercial internacional?

Para tratar desse assunto com a perícia necessária, conversamos com Pedro Caitete Martins e com a equipe de inteligência de mercado do Grupo Wilson Sons, o maior operador integrado de logística portuária e marítima do mercado nacional.

Segundo os especialistas consultados, podemos definir guerras comerciais internacionais como disputas econômicas entre países. Na maioria das vezes, elas são consequências de eventuais quebras de acordos de comércio em virtude de objetivos políticos, muitas vezes sob o argumento de proteção de produtos nacionais e de geração de empregos para a população local.

Ou seja, tais disputas se refletem no uso de mecanismos de protecionismo, com a imposição de barreiras alfandegárias, como quotas e limites de produtos importados e tarifas — práticas que causam uma reação em cadeia em todos os parceiros econômicos de um determinado país.

“O cenário de guerras comerciais internacionais não é algo novo”, contextualiza Pedro, “há vários exemplos de sanções econômicas sendo utilizadas como ferramentas em conflitos políticos e militares ao longo da história”. Como exemplos historicamente importantes, podemos citar o embargo dos Estados Unidos a Cuba e as sanções feitas à África do Sul, devido ao apartheid, em 1987. Entre os fatos recentes, vale mencionar as sanções econômicas ao Irã e à Venezuela.

O que torna o conflito comercial entre a China e os EUA — um dos mais marcantes dos últimos anos — diferente dos exemplos anteriores é o caráter bilateral, pois ambos estão impondo tarifas a produtos específicos. Além disso, o nível de integração das duas economias e a importância econômica dos dois países para o restante do mundo deve ser destacado.

Nesse caso, espera-se um impacto relevante sobre diversas cadeias produtivas, levando a uma desaceleração do comércio e, provavelmente, do crescimento econômico mundial.

Como o Brasil tem se colocado diante das guerras comerciais internacionais?

“O Brasil tem fortes laços comerciais e de investimentos tanto com a China quanto com os Estados Unidos — essas duas nações são os maiores parceiros comerciais brasileiros”, explica Pedro. Apesar de ter se beneficiado de forma pontual em um primeiro momento, o país tem se mantido neutro em meio a esse conflito.

Conforme levantado pela equipe de inteligência de mercado, o principal impacto em curto prazo que o conflito trará para o Brasil é o aumento das exportações de commodities agrícolas, como a soja. Isso porque, até 2017, os EUA eram uma importante fonte de soja para a China. No entanto, a partir de 2018, boa parte do volume que antes era suprido pelos norte-americanos foi substituída pela soja brasileira, propiciando recordes de exportação dessa commodity nos últimos meses.

Apesar disso, é necessário ressaltar que qualquer ganho para o Brasil pode ser considerado como algo pontual. Afinal, em um contexto de incerteza econômica e desaceleração do comércio exterior, o investimento estrangeiro e as exportações brasileiras devem ser impactados de modo negativo em um prazo mais longo. Para se ter ideia, recentemente, a OMC reduziu suas projeções de crescimento do fluxo de comércio mundial de 2,6% ao ano para 1,2% em 2019, como noticiado pela Folha.

As consequências projetadas no crescimento econômico também não podem ser deixadas de lado. A incerteza sobre o comércio pode reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 0,6% em 2021, de acordo com relatório da Bloomberg Economics. A China seria atingida de modo mais duro por esse fator: seu PIB ficaria 1% menor em comparação com parcela a ser subtraída da atividade econômica dos Estados Unidos.

Qual é o impacto causado no mercado de navegação?

“O cenário da navegação é bastante influenciado pelo crescimento econômico mundial e pelos movimentos do comércio internacional. Dessa forma, com a projeção de redução da taxa de crescimento do comércio, é esperado um impacto negativo durante os próximos anos nesse mercado”, explica Pedro.

As restrições americanas afetam em maior grau o transporte de contêineres de alguns dos bens chineses — manufaturados, geralmente. Por outro lado, os granéis importados pela China dos Estados Unidos, como grãos e petróleo, poderão ser substituídos por produtos de outros países. Nesse sentido, a China já é o principal destino de vários produtos brasileiros exportados, como soja, petróleo bruto e minério de ferro.

No caso do transporte marítimo brasileiro, em curto prazo, existe uma tendência que indica o aumento do volume de produtos destinados a China. Caso a disputa comercial se mantenha, a desaceleração da economia se tornaria ainda maior, reduzindo a demanda por petróleo e minério, o que prejudicaria as exportações brasileiras.

Como esse cenário afeta a economia brasileira?

Como mencionado, a consequência imediata é o aumento de exportações de commodities para a China. No entanto, até mesmo esse ganho de curto prazo pode ser revertido, devido aos grandes estoques de grãos mantidos pelos Estados Unidos.

Em uma projeção mais longa, é provável que haja uma desaceleração das transações com os principais parceiros comerciais brasileiros e da economia mundial como um todo. “Tais fatores afetariam negativamente o nosso país, reduzindo as exportações e a possibilidade de crescimento da economia nacional”, explicam Pedro e sua equipe.

Além disso, o cenário de incerteza na economia mundial é negativo para a atração de investimentos estrangeiros no Brasil, limitando o potencial de expansão da economia nacional.

“De maneira ampla, a melhor forma de o Brasil se preparar para choques externos como esse é organizar suas próprias finanças, reduzindo o déficit público. Aumentar a produtividade geral da economia por meio de reformas microeconômicas também é fundamental”, sugerem os especialistas.

Enfim, é inegável que as guerras comerciais internacionais podem gerar uma série de mudanças para a economia brasileira e para o contexto econômico global. Por isso, quem atua com comércio exterior precisa acompanhar as novidades relacionadas ao tema.

Se você gostou do texto, aproveite para baixar gratuitamente o nosso e-book sobre a importância do agenciamento marítimo para o transporte de cargas!

Você também pode gostar

Deixe um comentário